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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

SP Metal I e II (Baratos & Afins 1984 / 1985)

Era uma vez, um jovem do interior; mais precisamente, da pequena e aprazível Flórida Paulista/SP. Este jovem, empreendedor, inaugurou, em 24 de Maio 1988, uma loja de discos no Edifício Grandes Galerias, hoje, conhecido no mundo inteiro pelo vulgo, Galeria do Rock, que possui entradas pela Av. São João e pela R. 24 de Maio, centro de São Paulo; sintomático, não? O nome daquele jovem é Luis Carlos Calanca.

A loja, Baratos & Afins, trabalhava com discos voltados ao Rock e, atraindo este público, tornou-se "point" da galera. Visionário, Calanca percebeu que afloravam bandas de rock para todos os lados e mercado para estas bandas. Criou o selo independente homônimo à loja. Relançou discos dos Mutantes e de seu líder, Arnaldo Baptista, que deram retorno. Isto encorajou-o a lançar bandas novas, dos mais diferentes estilos, como o hard rock da Patrulha do Espaço, o rockabilly do Coke Luxe, o new wave do Felline e o positive punk do Voluntários da Pátria.

Chegou o ano de 1984. Antenado, Calanca, vendo que o público do Rock pesado crescia a olhos vistos, foi curtir os shows que aconteciam num evento que ocorria na Concha Acústica do Parque da Aclimação, em São Paulo. Este evento intitulava-se "Praça do Rock" e reunia várias bandas, atraindo muito público.
Calanca já tinha em sua mente o projeto de lançar um álbum do grupo Centúrias, que já despontava àquela época, mas impressionou-se com a performance do grupo Salário Mínimo naquele evento e outra ideia começou a maturar em seu cérebro.
Além do Centúrias, havia outros grupos que Calanca desejava lançar; Abutre, A Chave do Sol e Harppia, entre outros.
Fizeram-se reuniões, ora na Baratos & Afins, ora na sede do Jornal do Cambucí. Ao final destas reuniões, nasceu o projeto da coletânea SP Metal I, que contaria com os grupos Centúrias, Virus, Salário Mínimo e Avenger.
Não havia, na época, bons instrumentos, equipamentos e, menos ainda, produtores e técnicos de som que conhecessem o Rock pesado. Os quatro grupos entraram em estúdio com a cara e a coragem e as gravações ocorreram entre Agosto e Setembro de 1984. A arte da capa foi criada pelo vocalista do Virus, Flavio e ficou tão legal que foi reaproveitada no segundo volume.


Vamos ao álbum. Este abre com "Missão Metálica", do Avenger. A gravação é medonha; vocais e baixos em baixíssimo volume, bateria com som de panelas, guitarras com som de cortador de grama, mas havia talento musical alí. Lembra as primeiras canções do Judas Priest, da era Rocka Rolla.
Em seguida, o Centúrias vem com uma composição falando de uma das maiores paixões dos roqueiros, a motocicleta. "Duas Rodas" tem os bons vocais de Edú, bons "riffs", Milani destruindo no baixo e Paulo Thomaz mostrando ser grande baterista.
O Virus apresenta toda a sua ousadia em "Mattew Hopkins", faixa empolgante, rápida, dotada de grandes guitarras e boa letra, mesmo com a falta de qualidade da gravação, o Virus destacava-se pela qualidade musical e lírica.
O Salário Minimo fecha o lado A com "Cabeça Metal"; cadenciada, mostrando uma banda esforçada e um vocalista dono de voz poderosa, China Lee.

O lado B abre com um baixão! Marcio Milani mostra novamente seu talento na introdução de "Portas Negras", sem dúvida o "hino" do SP Metal I. Tudo nessa canção é bom, exceto a qualidade da gravação.
O Salário Mínimo retorna com "Delírio Intsreatelar"; uma grande canção, superior à "Cabeça Metal", o que não é pouco! Boa letra, bons vocais, cozinha e guitarrista esforçados. Uma banda aguerrida até os ossos!
O Avenger vem com "Cidadão do Mundo"; boa letra, músicos competentes, mas, francamente; Paulo Egydio Rossi não era um cantor de Heavy Metal. Faltava arrojo ao grupo, também.
Arrojo este que excedia no Virus, que fecha o SP Metal I com chave de ouro! "Batalha no Setor Antares" vinha com letra que fugia do lugar comum. Fernando "Piu Blackmore" triturando sua guitarra. A canção, que começa com um dedilhado despretencioso, vai acelerando e crescendo até chegar quase ao Thrash.


A coletânea fez tamanho sucesso que gerou um filho; SP Metal II, lançado em 1985. As gravações apresentaram pouquíssima melhora, mas as bandas participantes novamente revelam toda sua garra e talento.
A primeira canção vem com uma novidade. A única banda não-paulistana de ambos os álbuns, a Santuário era oriunda de São Vicente, litoral paulista, que era um barato. Visual medieval, tipo Manowar. Um som calcado na NWOBHM, bons músicos e um ótimo vocalista, o saudoso Julio Michaelis, que infelizmente perdemos para o câncer. "Espártaco; Gladiador Rei" é uma canção inesquecível, guiada pela guitarra de Ricardo "Micka" Michaelis, irmão do vocalista, compositor de mão cheia. A letra, que versava sobre o escravo gladiador Espártaco fugia do lugar comum. Santuário foi uma grata surpresa.
A segunda banda é a melhor do álbum; Korzus. Com um som moderno para a época, calcado no thrash metal da Bay Area, principamente no Slayer, o Korzus foi como uma luz na escuridão."Príncipe da Escuridão" vem com peso, velicidade e rispidez, surpreendendo todo mundo! Um massacre; mal gravado, mas, ainda assim, um massacre!

O Abutre trata de trazer a NWOBHM de volta, pela canção "Rock, Rock, Rock!" com muita competência. Outro vocalista que também deixa saudades, Wagner Giudice, falecido no começo deste ano de 2o017, possuía grande voz.
O Performance's fecha o lado A com "Viajante Perdido", que, apesar da boa letra, bons músicos e o impecável vocal de Robson, não decola. Com o Avenger no volume I, faltava ousadia ao Performance's, mas, que a canção é boa, isso é.
O Abutre abre o lado B com seu "hino", "Quando o Fogo Começa a Arder", que mostra a influência do Judas Priest no som do grupo. Sonzaço!
O Performance's retorna com "Guerreiro da Paz"; u.a ótima canção, onde Robson mostra toda a qualidade de sua voz.
O Santuário vem com a canção que dá nome ao grupo e mostra novamente todo o seu valor. Que música legal. 
O Korzus fecha SP Metal II com "Guerreiros do Metal", novamente nocauteando os icautos com sua agressividade sonora. Pompeu destrói na voz.
Os dois álbuns são seminais e todo fã de Rock pesado tem de conhecer.
Luis Carlos Calanca, idealizador do projeto falou com exclusividade ao Terreiro: "O projeto todo foi maravilhoso. Foi insano trabalhar naquelas condições, mas ao mesmo tempo foi instigante, estimulante. A galera estava muito afim e todos ajudaram-se. Não poderia ter sido melhor. A segunda parte tinha de avançar e isso aconteceu".
Hoje, passados maia de trinta anos, temos a alegria de ver o Salário Mínimo e o Korzus em plena atividade e o Abutre ensaiando um retorno, entre outros nomes que entre idas e vindas seguem levando a bandeira do metal adiante.
Fazem a alegria dos saudosistas e são um belo exemplo aos mais jovens.
Ficam as saudades de Wagner Giudice e Julio Michaelis e o sincero agradecimento àquele jovem do interior, Luis Carlos Calanca.

Virus
Flavio(vocais)
Fernando "Piu"(guitarra)
Renato Barros(guitarra)
Carlos Calul(baixo)
Caio de Cápua(bateria)

Centúrias
Edu Camargo(vocais)
Fausto Celestino(guitarra)
Marcio Milani(baixo)
Paulo Thomaz(bateria)

Salário Mínimo
China Lee (vocais)
Junior Muzzili (guitarra)
Magoo (baixo)
Beá (bateria)

Avenger
Paulo Egydio Rossi(vocais)
Roberto "Bob"(guitarra)
Luis Teixeira(baixo)
Gilson(bateria)

Santuário
Julio Michaelis (vocais/R.I.P.)
Ricardo "Micka" Michaelis(guitarra)
Jorge "Rato" Bastos(baixo)
Alessandro(bateria)

Korzus
Marcello Pompeu(vocais)
Silvio Golfetti (guitarra)
Eduardo Toperman (guitarra)
Dick Siebert (baixo)
Maurício "Brian" (batera)

Abutre
Wagner Giudice(vocais/R.I.P)
Ricardo Giudice(guitarra)
Thomas Catafay(baixo)
Adalberto Rosado(bateria)

Performance's
Robson Goulart(vocais)
Luiz Carlos "Tutu"(guitarra)
Davidson Monteiro(guitarra)
Reinaldo Moreno(baixo)
Ricardo Moreno(bateria)

terça-feira, 31 de outubro de 2017

China Lee & Salário Mínimo - Entrevista

Corria o ano de 1977. Um jovem guitarrista, oriundo da Vila Maria, zona norte da Capital paulista, Junior Muzilli, resolveu montar uma banda para tocar o heavy metal e o hard rock de que tanto gostava. Apareceu um cantor, China Lee. Estava formada a espinha dorsal do que viria a ser o Salário Mínimo, na época, que não era para ser levado a sério. Mas os meninos eram esforçados, o som era legal e começaram a tocar ao vivo. Em 1981, a coisa começou a ficar séria. A formação estabilizou-se com a adição do baixista Magoo e do baterista Beá, e a partir daí desandaram a fazer shows, gravar discos, fazer sucesso. Entraram em hiato, voltaram e hoje, 40 anos depois daquele despretencioso começo, o vocalista China Lee atendeu gentilmente ao Terreiro do Heavy Metal para contar esta bela história, com exclusividade.

O repórter escalado para esta matéria acompanhou de perto a primeira fase da carreira do Salário Mínimo e é a respeito deste princípio que Chilna Lee disserta: "Bem; quem começou com o Salário Mínimo foi o Junior Muzilli, que teve a ideia de montar a banda. Cheguei depois. À princípio não era nada muito sério. Era mais para fazer um som, mesmo, mas, aos poucos foi ficando sério. Chegaram o Magoo no baixo e o Beá na bateria e começamos a fazer shows de verdade, lá por 1981. Começamos a tocar em tudo que era lugar, como você mesmo assistiu vários destes shows. Teatro Lira Paulistana, Teatro Idema, Madame Satã, Teatro Mambembe, Fofinho, Led Slay, enfim, todo o circuito que havia na época, que você conheceu bem. Foram muitos shows, que foram chamando a atenção do público, em especial, o feminino, que ia em grande quantidade. A gente tinha este carisma com o público feminino e, sabe como é; show com bastante mulher, a galera vai em peso e os nossos shows lotavam, o que ajudou muito, porque, você deve lembrar que, naquele tempo, a melhor divulgação era o boca-a-boca".

Realmente; eram tempos rudimentares e quem ia a algum show e curtia, contava aos amigos e assim, o público ia crescendo, show a show. China Lee segue recordando: "Tocamos em diversos locais e eventos. Até que em 1984, na extinta Praça do Rock (N.R.: Evento que ocorria mensalmente na Concha Acústica do Parque da Aclimação, na região central da Capital Paulista, organizado pelo músico Darlan Jr.), o Luis Carlos Calanca (N.R.:proprietário da loja e gravadora Baratos & Afins) gostou do nosso show. Dali nasceu a ideia do que tornou-se o "SP Metal I", onde nós entramos com duas músicas, "Cabeça Metal" e "Delírio Interestelar", que projetaram o Salário ainda mais".


Em 1985, ocorre uma mudança que atingiu a formação, o som, o visual e a produção da banda. A cozinha formada por Magoo e Beá foi substituída pelo baixista Thomaz Waldy e pelo baterista Nardes Lemme. Junior Muzilli recebe a parceria de um outro guitarrista, Arthur Crom. O som passou a tender ainda mais para o hard rock e o visual para o "glam".
O grupo seguiu em trajetória ascendente; a fama cresceu, o grupo começou a ser requisitado para programas radiofônicos e televisivos. Tamanha foi a exposição que, em 1986, China Lee recebeu um convite para protagonizar um comercial televisivo de uma popularíssima marca de xampú.
"Pois é! O sucesso que o Salário estava fazendo, proporcionou a nós, "peões" da Vila Maria, mas que tinham os show repletos de garotas, muitas oportunidades. Uma delas foi essa. Acho que chamava 'Heneé Maru', ou coisa assim. Eu tinha as imagens, mas perdi, uma pena", entristece-se o vocalista. Só que esta tristeza não durou quase nada. Nosso intrépido e solerte repórter, num exercício arqueológico digno de um Indiana Jones, chafurdou nos profundos e arenosos pântanos da internet e presenteou China Lee com o comercial do xampu "Maru Henna. Obvio; o Terreiro do Heavy Metal é conhecido pelo bom humor. Portanto", China Lee, nosso "hero of brazilian heavy metal"; tai o comercial, pra todo o mundo ver. China Lee completa: "O cachê foi legal". 


Enfim; a fase áurea da carreira do Salário Mínimo havia eclodido desde SP Metal I e seguia para o alto e avante. A memória de China Lee segue afiada: "A Baratos & Afins percebeu o sucesso do grupo e planejava lançar um álbum nosso, mas estava lançando muitos grupos, como os nossos amigos d'A Chave do Sol, do Harppia, Platina e outros; gravadoras "majors", também demonstraram interesse e, dentre elas, a RCA, que contatou o Luis".
Luis Carlos Calanca mete o bedelho na entrevista: "O Salário estava indo bem e a RCA oferecia boas condições para os meninos. Não tinha porque segurar. Liberei na hora".
China Lee também tem suas recordações: "Realmente; as gravadoras começaram a se interessar e fazer suas propostas. A RCA procurou o Calanca e ele liberou a gente, mostrando que queria mesmo era ver o crescimento do que ele havia lançado. Então, assinamos com a RCA, que ofereceu condições bem legais de gravação e oferecia um projeto de promoção, com muito rádio e TV. Aparecemos muito na imprensa especializada e um pouco na "comum". 
Em 1987, portanto, há 30 anos atrás, "Beijo Fatal" era lançado. Um bom álbum, com boas canções e uma produção boa para uma empresa que nunca havia trabalhado com música pesada antes, começou a fazer sucesso, com a faixa-título, "Jogos de Guerra", "Dama da Noite" e a regravação de "Rosa de Hiroshima", de mestre Vinicius de Moraes.

"O disco, segundo o relatório de vendas da RCA, vendeu 79.000 cópias, uma ótima vendagem para o primeiro álbum de uma banda", declara China Lee com humildade, mas o álbum teve relançamentos e continuou sendo vendido no decorrer dos anos. Por baixo, deve, hoje em dia, estar por volta de 140/150.000 cópias, o que garantiria ao grupo, no mínimo o Disco de Ouro, se o mundo fosse um lugar justo.
Acontece que, para ampliar ou manter o sucesso obtido é necessário que uma banda mantenha-se lançando álbuns, o que, infelizmente, não é o caso do Salário Mínimo. "O Salário é, realmente, uma banda de pouquíssimos discos, mas, os poucos que fizemos, fizemos o melhor qhe pudemos, daí vem uma parte de nosso sucesso, mas a nossa força, na verdade, vive nos shows", declara o cantor.

Assim sendo, o tempo foi passando, as aparições na mídia minguando, o público roqueiro mudando.
Em 1990, Junior Muzilli deixa o grupo. "Foi um baque! Continuamos por algum tempo como quarteto, mas, infelizmente, com o passar do tempo, decidimos encerrar as atividades do Salário. Não havia mais estímulo para continuar. Eu havia conhecido o Micka (N.R.: Ricardo Michaelis, ex-guitarrista do Santuário), que é um grande guitarrista e compositor e, como estavamos interessados em fazer um som similar, montamos o Extravaganza, que tinha um som mais puxado para o hard rock e, até mesmo para o AOR, sabe? Era um som que realmente nos agradava e trabalhamos duro por esta banda, fizemos muitos shows e lançamos um disco, "O Prazer é Seu", que, infelizmente acabou nao tendo o sucesso que nós esperavamos. Por fim, a banda acabou, mas restaram boas lembranças".

Com o fim do século XX o vocalista, que sempre ouvia insistentes pedidos do público pela volta da banda, começou a acalentar esta ideia. Tal objetivo foi atingido em 2004. "Juntei-me ao guitarrista Kenzo Shimabukulo e outros bons músicos e retomei a carreira do Salário Mínimo. Contamos com grandes músicos, como Marcelo Ladwig (bateria) e, depois, o Junior Muzilli voltou, estando conosco até hoje, junto com o guitarrista Daniel Beretta, o baixista Diego Lessa e o baterista Marcelo Campos, que substituiu Ladwig. Começamos a tocar em festivais do nível do Roça'n'Roll (Varginha/MG), A Quaresmada (Brasília/DF) e o Super Peso Brasil, por exemplo.
Em 2010 lançamos o álbum "Simplesmente Rock", que mostra o som do Salário de hoje (o repórter que vos escreve destaca a canção "Fatos Reais" deste álbum, mas o mesmo é todo bom). Em nossa carreira tivemos a honra de abrir shows para o Uriah Heep, o Scorpions, o Twisted Sister e o The Rods (banda de Dave Feinstein, primo de Dio) e aprendemos muito com estas oportunidades. Continuamos a fazer um bom número de shows por mês e pretendemos realizar o pedido dos fãs de lançar um novo álbum.


Nós, do Terreiro, também aguardamos este novo álbum ansiosamente.
Agradecemos à China Lee pelo bate-papo e homenageamos, com esta singela matéria a este cantor, de 52 anos de idade, pai da pequena Manuela, chamado China Lee e a este monstro sagrado do rock brasileiro chamado Salário Mínimo, pelos 40 anos dedicados ao Rock.
Matéria por Junior Costa